Associação Portuguesa de Literatura Comparada

Foto RTP Arquivo
Dizem que a morte é uma invenção da vida para que a vida se renove em cada nascimento.
Dizem que os seres humanos, tal como as maçãs, caem das árvores para que a semente caia na terra e a maçã nunca morra.
Dizem que a arte é imortal, mas é só porque ela permite que o espírito viva, renovada mente em cada leitor.
Dizem que as palavras ditas se esquecem, mas que as escritas permanecem, como belas adormecidas à espera de quem as beije.
Dizem que a morte é uma curva da estrada, somente deixar de ser visto, e que se escutarmos com atenção ouviremos inda a passada de quem existe como nós existimos.
Dizem que no dia seguinte ninguém morreu, e que, nesta ficção, qualquer fim é somente um novo início, em que o apocalipse termina no génesis.
Dizem que estas crenças são as únicas que nos distinguem dos animais. Os arqueólogos, quando não encontram vestígios de um ser humano pelos objetos que o rodeiam, só reconhecem um ser humano quando o veem dobrado como se fosse uma criança a crescer no ventre de sua mãe.
Dizem isto porque é o que fazemos. Prolongamos a vida, vendo, imitando pela força da atração, aprendendo, revendo, relendo, reescrevendo.
Assim seja. Assim façamos.
Morreu hoje, na madrugada do dia 20 de janeiro de 2026, Maria Alzira Seixo (1941-2026). Professora, investigadora, poeta, pioneira em tantos rumos que foi tomando a Literatura Comparada em Portugal, Maria Alzira Seixo foi fundadora e presidente da Associação Portuguesa de Literatura Comparada (1987) e, nesse contexto, criou e dirigiu a revista Dedalus que lhe está ainda hoje ligada. Entre 1991 e 1994, presidiu à Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ ICLA).
Um dia, perante uma pergunta indiscreta, elegeu como livro da sua vida Em busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust. Em suma, porque lhe fazia ler mais, ler melhor. Bem podia ela estar-nos falando então do que nos quer ainda hoje fazer.
Bibliografia principal (ensaios)
A expressão do tempo no romance português contemporâneo (1968) (2.ª edição Lisboa: IN-CM, 1986: Prémio Vergílio Ferreira, em 2011).
Discursos do texto, Amadora : Livraria Bertrand, 1977
Le parcours du plaisir. Essai d’analyse d’un texte français du XVIIe. siècle: “Francion” de Charles Sorel, Paris : Fondation Calouste Gulbenkian/ CCP, 1985
A palavra do romance. Ensaios de genologia e análise, Lisboa: Livros Horizonte, 1986. Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio.
O essencial sobre José Saramago, Lisboa: IN-CM, 1987
Lesen, Unbegrenzt Reisen. Die Portugiesen Und Die Welt./ O Livro e a Viagem sem limites. As Letras Portuguesas e o Mundo. Catálogo da exposição homónima do Ano de Portugal em Frankfurt, Introdução e Antologia, Lisboa: CNCDP, 1997
A Viagem na Literatura (coord.), Cursos da Arrábida, vol. 1. Lisboa: Publ. Europa-América, 1997
Poéticas da viagem na literatura, Lisboa: Cosmos, 1998
Les Récits de voyage: typologie, historicité, Lisboa: Cosmos, 1998
O Discurso Literário da “Peregrinação”, Lisboa: Cosmos, 1999
Lugares da ficção em José Saramago. O essencial e outros ensaios, Lisboa: IN-CM, 1999. Prémio Jacinto do Prado Coelho, do Centro Português da Associação Internacional de Críticos Literários, em 1999.
A Vertigem do Oriente. Modalidades discursivas no encontro de culturas (co-ed.), Lisboa: Cosmos/ Instituto Português do Oriente, 1999
Pessoa : unité, diversité, obliquité. Colloque de Cerisy (co-dir.), Paris: Christian Bourgois, 2000
The Paths of Multiculturalism. Travel Writings and Postcolonialism (ed.), Lisboa: Cosmos, 2000
Writing and Cultural Memory, Amsterdam/ Atlanta: Rodopi, 2000
Le sens du voyage dans l’écriture romanesque, ed. bilingue francês/grego, Athens: Cener Neoellenikon, 2000
Outros erros. Ensaios de literatura, Porto: Asa, 2001. Prémio P.E.N. Clube Português de Ensaio, 2002.
Eu fui ao mar às laranjas : ensaio sobre Luísa Dacosta, in “Duas Obras Ilustradas de Luísa Dacosta”, Porto: Asa, 2001, pp. 18-19. 2001
Os romances de António Lobo Antunes : análise, interpretação, resumos e guiões de leitura, Lisboa: Dom Quixote, 2002. Grande Prémio de Ensaio Literário APE/PT, 2002.
Poesia
Letra da terra (Poesia). Com 3 desenhos de Ângelo de Sousa, Porto: O Oiro do Dia, 1983. 2.ª edição, Porto: Modo de Ler: 2017
Diário do lago (Poesia). Com 1 desenho de Armando Alves, Porto: Asa, 2001
Pela Direção da APLC,
Maria Luísa Malato
A APLC
A 14 de Maio de 1987 foi oficialmente criada a Associação Portuguesa de Literatura Comparada (APLC), tendo a 25 de Junho do mesmo ano reunido a primeira Assembleia Geral. Os Estatutos da APLC, então publicados, identificam três grandes propósitos desta sociedade:
– a promoção e o desenvolvimento dos Estudos Comparatistas em Portugal;
– a institucionalização académica da área de Literatura Comparada;
– a conservação e reforço dos laços internacionais estabelecidos.
Dos membros fundadores da APLC, devem realçar-se os seguintes nomes:
- Maria Alzira Seixo, a primeira Presidente da Direcção da APLC e primeiro membro português a integrar, a partir de 1985, o Bureau da AILC/ICLA.
- Helena Buescu – a primeira Doutora em Literatura Comparada, em Portugal, na recém-criada área de Doutoramento na Universidade portuguesa, em 1988.
- Margarida Losa – a primeira Investigadora portuguesa a obter doutoramento em Literatura Comparada(pela New York University), em 1987.
Presentes desde a primeira hora estiveram também Vítor Aguiar e Silva, Yvette Centeno, João de Almeida Flor, Manuel Gusmão, signatários com Maria Alzira Seixo da escritura de constituição da APLC. À acção matricial destes investigadores se juntou porém a colaboração de muitos outros que, desde o início dos anos oitenta, nas Faculdades de Letras, em Lisboa, Porto e Coimbra, pugnavam também pela existência em Portugal de disciplinas em Literatura Comparada nos vários níveis de formação universitária: José da Costa Miranda, David Mourão-Ferreira, João Barrento, Maria de Lourdes Belchior, Fernando Martinho, João Ferreira Duarte, Helena Carvalhão Buescu, Maria Manuela Delille, Ofélia Paiva Monteiro ou Carlos Reis, entre muitos outros.
Para mais informações sobre a criação da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, veja-se o número inaugural da Dedalus de 1989 disponível no link infra:
Outros se seguiram: o caminho vai sendo feito pelos que o percorrem.
Regendo a sua acção, não apenas pelos Estatutos, mas também pelo legado dos seus fundadores, a APLC oferece aos associados:
– a difusão e o apoio a actividades que promovam os estudos literários de índole comparatística,
– a promoção e divulgação dos cursos em estudos comparatísticos, nos vários centros de investigação existentes em Portugal e no estrangeiro, e
– a visibilidade das actividades nacionais no quadro da AILC/ICLA, na qual os sócios nacionais se encontram simultaneamente associados.
Dando regularmente forma a estes objectivos da APLC, foi sendo editada a Revista Dedalus, cujo primeiro número foi publicado em 1989, ano também do I Congresso Internacional de Literatura Comparada em Portugal (Lisboa e Évora).
O logótipo da APLC, criado a partir de um desenho de Manuel Gusmão, representa o projecto desta associação em prol da Literatura Comparada. Desde o conceito de Weltliteratur, usado por Goethe em 1827, ao de Literatura-Mundo, retomado por Helena Buescu, em 2013, a Literatura Comparada vai-se definindo como consciência de uma tensão permanente entre o “universo” e o “diverso”. Uma forma de entendimento da investigação literária “que se ocupa do estudo sistemático dos conjuntos supranacionais”. “Afã, desejo”, “exploração”, actividade em confronto com outras actividades (de diferentes tempos, espaços, textos, ou artes), reflexão ponderada sobre “a metamorfose de géneros, formas ou temas” (Claudio Guillén).
Simbolicamente, entre dois mundos, a poética cartográfica de um investigador “em deslocação”.
Algumas vantagens dos associados da APLC:
1. Contribuir para a vitalidade da APLC, instituição histórica dos Estudos Comparatistas em Portugal (fundada em 1987), e instituição agregadora dos centros de pesquisa e dos investigadores de Literatura Comparada em Portugal;
2. Participar nos Corpos Sociais que constituem a APLC (Direcção, Assembleia Geral e Conselho Fiscal) e desta forma procurar dinamizar esta área dos Estudos Comparatistas;
3. Ser igualmente associado da Associação Internacional de Literatura Comparada (AILC/ ICLA), com plenos direitos de participação nos corpos sociais da AILC/ ICLA e nos seus processos eleitorais, A quota na APLC inclui o pagamento da quota da AILC/ ICLA, sem que o associado tenha outros encargos;
4. Receber periodicamente as Newsletters da APLC e da AILC/ICLA com informações actualizadas de publicações e eventos científicos;
5. Ter desconto ou isenção na taxa de inscrição das Conferências organizadas pela APLC e, pontualmente, nas organizadas pela AILC/ ICLA;
6. Usufruir de descontos e/ou isenção na compra de números novos ou anteriores da revista Dedalus, a que a APLC se encontra historicamente ligada, bem como de outras publicações pontuais da responsabilidade da APLC;
Relembramos que a quota da APLC é atualmente (2026) de 25 euros (cf. Quotas), sendo a única fonte de sustentabilidade da associação.
A proposta de associado, com breve apresentação do CV na área e Instituição académica a que pertence, deve ser enviada para o endereço aplcomparada@gmail.com.
Para regularização de quotas em falta deverá ser usado o mesmo endereço.

