Edição #4 | Dezembro de 2025

Boletim trimestral da APLC com notícias aos associados, divulgação de eventos, publicações e oportunidades

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Tasi Tolu, foto de mlmalato@gmail.com

Editorial

Se daqui a uns cinco séculos nos estudarem, talvez digam outros de nós o que nós dizemos hoje do Renascimento. O Renascimento, desde logo o lido por Burckhardt, é a antevisão das dores de um parto que deu à luz o livro impresso. Esquecemos a violência do nascimento, e talvez ainda mais a violência dobrada dos renascimentos. O Renascimento é uma libertação do indivíduo e a imaginação de tiranias que esmagam essa mesma liberdade… Do Renascimento nasce o livro impresso, e do livro impresso nasce o Santo Ofício. O leitor torna-se superficial, lê muito, mas vai logo ao índice, ao título do capítulo, ao que interessa. O manuscrito ganha ao livro em qualidade da memória crítica. É no Renascimento que proliferam os tratados sobre a importância da Memória. Mas é como se a Memória corresse então perigo de vida. O livro impresso encurta distâncias, permite comparar o que era incomparável. Mas a exegese dos textos separa invariavelmente os que acreditam no mesmo Deus.

Cada mudança de suporte parece criar uma possibilidade de expansão e uma antevisão da queda.

A alegria e o perigo da fala… A alegria que deve ter sentido Adão ao nomear todos os seres da Terra, pois tendo o Senhor Deus formado da terra todos os animais terrestres e todas as aves do céu, ele as trouxe a Adão, para este ver como os havia de chamar. Mas que perigo é comer uma maçã! Garante porém a serpente que não é da morte temida por Virago que ela morrerá: “Deus sabe que em qualquer dia que vós comais desse fruto, se abrirão os vossos olhos” (Gn 3, 5).

A excitação com que o deus Toth ofereceu a Thamus o dom da escrita… Todos os egípcios aumentariam a sua ciência, crescendo neles os momentos memoráveis. Mas o rei Thamus sabe bem que este presente lhe chega já envenenado: “Dispensando os homens de exercitar a memória, antes ela produzirá o esquecimento”. E estando convencidos de que estão bem informados pelo que veem escrito, serão incompetentes, “e para além do mais insuportáveis neste seu comércio, porque em vez de sábios se tornarão sabedores de ilusões” (Fedro, IV, 275b).

No século XVIII, entre folhetos, gazetas e livros, Goethe crisma a Weltliteratur dividido entre a exaltação da literatura alemã e a consciência de uma humanidade intuída pelo conhecimento da literatura universal: “perante a emergência da vida prática, e através da brutalidade, da selvajaria, a crueldade, a duplicidade, o egoísmo, e a mentira, se perfila um outro princípio que projeta uma inefável doçura”, não porque do conhecimento se obtenha uma “paz universal”, mas porque a sua consciência permite que a disputa se torne um pouco menos venial, que a guerra seja talvez um pouco menos cruel, ou a vitória um pouco menos arrogante (Sobre Arte e Antiguidade, 1827).

Hoje, nós, renascentistas inconscientes, exaltamos o fim da História, a inutilidade da Memória, a irremediável Pós-Verdade, a intransmissibilidade de cada sensação e a sinceridade de cada sentimento. Une-nos, porém, “a Verdade” da IA. É agora desta morte que morreremos, pergunta ainda Virago?

O mais recente livro de António Damásio editado em Portugal, A Inteligência Natural & a Lógica da Consciência (Natural Intelligence & The Logic of Consciousness) é uma resposta enviesada. Damásio pressupõe, perante a passividade dos utilizadores dos suportes, uma inteligência artificial (que não é artificial). Mas incita-nos uma vez mais, preocupado com uma inteligência natural (que não é natural), a pensar a lógica da consciência, distinguindo-a do somatório de informações sensoriais e sentimentais.

É neste panorama de sucessivos renascimentos dolorosos que vai nascendo e crescendo a exegese da Literatura Comparada, uma persistente Weltliteratur. Não por comparar, mas porque a comparação visa ainda uma consciência acrescida de algum princípio por haver e por fazer. Não por simular a “ética prescritiva”, a “correlação cósmica” ou o afeto – que isso qualquer inteligência grátis hoje faz – mas por nos salvar da esquizofrenia intelectual e alimentar em cada um de nós “uma só mente dentro do mesmo corpo singular”… “mesmo que aquilo que ela nos traz […] seja tudo menos modesto” (2025: 290).

Natal de 2025
Maria Luísa Malato


Destaques

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Continua aberto, até 28 de fevereiro de 2026, o envio de propostas de comunicação ao IX Congresso Internacional da APLC. Convidamos à ampla participação!

A próxima Assembleia Geral da APLC realiza-se a 30 de janeiro de 2026, pelas 18 horas, por videoconferência, conforme convocatória enviada aos associados

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Relembramos aos nossos associados a importância de terem as quotas regularizadas


Chamadas


Eventos e Atividades


Publicações

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Carnets
n.º 30 (2025)
6
Revista 2i
v. 7 n.º 12 (2025)
7
Comparative Literature
v. 77 n.º 4 (2025)
8
Comparative Critical Studies
v. 22, n.º 3 (2025)
9
452ºF
n.º 33 (2025)
10
The Rise of Office Literature
Daniel Jenkin-Smith
11
Space, Affect, Memory
Eds. F.C. Aseguinolaza & T. E. Barrera
13
Reading Robert Walser
Simon Wortham
15
Teaching Migration in Literature, Film, and Media
Eds. Masha Salazkina & Yumna Siddiqi
16
Constelações 4
Pedro Eiras

“Quando eu for grande (Carta aos meus netos)”, de José Mário Branco


Apelamos a todos os nossos associados para que partilhem connosco iniciativas que gostariam de ver divulgadas em futuras newsletters da APLC (aplcomparada@gmail.com)