Edição #2 | Junho de 2025

Boletim trimestral da APLC com notícias aos associados, divulgação de eventos, publicações e oportunidades

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Editorial

Neste último boletim do final do ano letivo de 2024-2025, se formos a crer nas “metáforas obsessivas” ou “obsidiantes” (Charles Mauron) que vão aparecendo em muitas propostas de colóquios e livros de Estudos Comparatistas, torna-se evidente um fosso cada vez mais profundo entre a mudança e a permanência do que pensamos: nada será como dantes, ainda que tudo façamos igual.

Talvez por isso voltamos a falar muito de Ilhas, representações do Paraíso que depressa se tornam espaços de onde não conseguimos fugir. De Resistência ou de Resiliência, qualidades de alguém ou algo ameaça a existência do seu contrário. Da Rede, instrumento de agregação e forma de armadilha. Ou do Cuidado/ Caring, expressão híbrida de solicitude e perigo.

Não serão por acaso. O sociólogo Juan Villoro, autor do livro □ No soy un Robot, de que foi publicada uma tradução portuguesa em maio de 2025, justifica-o incisivamente: pela primeira vez na História da Humanidade, é exigido a um ser humano que faça prova de pertencer à espécie humana.

Podemos começar por ler este livro como um conjunto de ensaios de Sociologia da Leitura. Ora nos remete para a primeira fase da democratização da escrita, na Antiguidade, ora a compara com a democratização dos imagem, na Aldeia Global de McLuhan. Ora nos recorda a implementação do livro no Renascimento, ora nos projeta na atual sociedade digital em que os documentos são livremente produzidos pela máquina. É um livro interessante, no mínimo. Mas, lido no contexto dos Estudos Comparatistas, é um livro muito estimulante, porque – pelos seus sub-títulos (“Tecnologia e Eloquência”, “O Texto e o Têxtil”, “O olho de Pégaso”, “A intimidade literária”) ou autoridades bibliográficas (Lukács, Barthes, Steiner, Kundera, Eco, Calvino…) –, ele nos obriga a ponderar a relação entre Ciência e Literatura.

Ou até as raízes histórico-filosóficas da Literatura Comparada, o seu Estudo (sobretudo, o seu Ensino). O que são hoje afinal a “Ficção/ a Poesia” (Dichtung) e a “Verdade” (und Wahrheit)? A “Literatura-Mundo” (Weltliteratur)? Ou as “Afinidades eletivas” (Die Wahlverwandtschaften)? O que é a leitura encomendada à IA, se ela não for feita de sucessivas experiências pessoais de tentativa e erro?

Não é um problema novo. A mudança dos suportes sempre criou ingénuos, fascinados pela omnipotência de um Deus Desconhecido, que bem pode ser hoje o Algoritmo. Mas há que trincar novamente a maçã, para descobrirmos que somos como deuses, conhecendo a diferença entre o bem e o mal. Juan Villoro escreve, a meio do livro, sobre as destrezas da memória, criadas e treinadas pela experiência pessoal da leitura. E refere ensaios científicos que vão sendo feitos à “inteligência humana”, a única por definição. Trata-se de perceber com que fios nos cosemos. E, aparentemente, não estamos mais inteligentes, vamos até regredindo em competências sociais. Villoro pensa certamente em G. Papini e na sua invenção de Gog, para perguntar em que medida podemos recuperar essa “inteligência social” que vamos perdendo: “podemos inventar para trás, reordenar de maneira retrospetiva a história da técnica”? Os danos do analfabetismo (não saber ler) foram sendo substituídos pelos danos da iliteracia (não compreender o que se lê). Mas os danos da iliteracia podem sobreviver aos danos da “inteligência artificial” (que desiste de ler o que a máquina lê)?

Como vamos nós estudar e ensinar Literatura Comparada quando voltarmos em setembro?

Em nome da Direção da APLC,
Maria Luísa Malato



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“A mão no arado” de Ruy Belo lido por Luís Miguel Cintra


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