Edição #3 | Setembro de 2025

Boletim trimestral da APLC com notícias aos associados, divulgação de eventos, publicações e oportunidades

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Em Destaque

IX Congresso da APLC 2026

O CUIDAR DA LITERATURA

UMA PRÁTICA COMPARATISTA

15, 16 e 17 de julho 2026
Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Org. ILC – Universidade do Porto/Universidade dos Açores

Em 2003, Gayatri Chakravorty Spivak anunciava, num ensaio marcante (Death of a Discipline), a morte da Literatura Comparada enquanto disciplina literária tal como a conhecíamos e praticávamos. O título parecia definitivo. Porém, vários investigadores em literatura preferiram lê-lo como um manifesto a favor de uma renovação do método comparatista aplicado ao fenómeno literário.

Spivak denunciava no seu texto as contradições do comparatismo tradicional e ocidental, que a perspetiva globalizada (Damrosch, 2003), privilegiada há muito pela investigação em literatura, se propunha resolver e superar através de abordagens críticas centradas na importância renovada da tradução, da circulação e da cartografia do texto lido (Moretti, 2005), do policentrismo (Chakrabarty, 2000), e da tensão simbólica e histórica entre o centro e a periferia, mediante uma atenção à hibridez, à crioulização (Glissant, 1990) e à descolonização do cânone (Bhabha, 1994; Spivak, 1999).

Vinte anos passados, impõe-se reconhecer que, não apenas os Estudos Comparatistas resistem, como também se revelam uma arma disciplinar de resistência face às aporias da literatura-mundo e aos projetos culturais fundados na premissa global. Cumpre, aliás, sublinhar que o primeiro compromisso da Literatura Comparada, desde a incipiente definição da Weltliteratur, é, de facto, o cuidar da Literatura enquanto manifestação da complexidade do mundo. Ela assenta numa prática de cuidado, sempre consciente da necessidade de abertura a novos desafios e orientações críticas.

Entretanto, o conceito de care impôs-se no pensamento contemporâneo (Tronto, 1993; Latour, 2006; Laugier, 2020; Fleury, 2019) como abordagem do mundo cuja expressão polissémica se destaca na investigação aplicada, nomeadamente em literatura (cuidado, tratamento, cura). Partindo de uma perspetiva alargada do conceito e da prática do care, que interroga o literário enquanto viragem ética, epistemológica e social, este colóquio pretende sublinhar o potencial do literário enquanto saber heurístico outro sobre o mundo na esfera pública, a sua forte propensão atualmente a retomar o compromisso social sob a forma de agentividade, bem como a sua capacidade de imaginar, ou mesmo de gerar, mundos por vir e em devir. Com efeito, cuidado e prática do comparatismo articulam-se em torno da renovação das atenções suscitadas pela investigação em Literatura, enquanto afirmação da resistência desta disciplina que se quer cuidado nas suas duas aceções: atenção e exigência. Como afirma Frédérique Toudoire-Surlapierre (2022), «A questão é menos procurar definir, pela enésima vez, a literatura comparada do que interrogar porque é tão importante saber o que se faz quando se compara».

A Literatura Comparada ganha assim uma nova legitimidade teórica e heurística: não visa apenas o potencial diferencial do outro, mas evidencia o sentido inerente à prática comparatista, essencial à estabilidade identitária, conferindo a esta disciplina uma vocação epistémica e um impacto político que se lhe quis, por vezes, negar. Daí a sua afinidade com as dinâmicas do care.

Assim, a Associação Portuguesa de Literatura Comparada (APLC), em coorganização com o ILC da Universidade do Porto e com a Universidade dos Açores, tem o prazer de anunciar este congresso internacional, que terá lugar na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 15, 16 e 17 de julho de 2026, e para o qual lança este convite à apresentação de comunicações a todos os investigadores comparatistas que o cuidar da Literatura, enquanto prática comparatista, interpela, questiona, mobiliza ou inspira.

Data-limite para envio de propostas: 28/02/2026

Comissão Organizadora

Maria Luísa Malato (Direção da APLC, U. Porto/ILC), Fátima Outeirinho (U. Porto/ILC), José Domingues de Almeida (U. Porto/ILC), Dominique Faria (U. Açores/CHAM-NOVA-UAc)

A hiperligação abaixo contém informação completa sobre envios, datas, eixos temáticos e modalidades de inscrição.


Chamadas


Eventos e Atividades


Publicações

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Writing Between Languages
Sheela Mahadevan
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The Routledge Companion to Global Comparative Literature
Eds. Zhang Longxi & Omid Azadibougar
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Revista da Casa de Goa
N.º 36 (2025)
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IBÉRICAS: Las mujeres y la construcción del espacio cultural peninsular
Eds. Elena Cordero Hoyo, Fátima Fernandes da Silva, Santiago Pérez Isasi

Em jeito de coda

Microscópica quase,
uma migalha entre as folhas de um livro
que ando a ler.

Emprestaram-me o livro,
mas a migalha não.
No mistério mais essencial,
ela surgiu-me recatadamente,
a meio de dois parágrafos solenes.
Embaraçou-me o pensamento,
quebrou-me o fio (já ténue) da leitura.
Sedutora, intrigante.

Fez-me pensar nos níveis que há de ler:
o assunto do livro
e a migalha-assunto do leitor

(era pão a matéria consumida no meio
de dois parágrafos e os olhos
consumidos: virar a folha, duas linhas lidas,
a intriga do tempo quando foi
e levantou-se a preparar o pão
voltando a outras linhas)

Fiquei com a migalha,
desconhecida oferta do leitor,
mas por jogo ou consumo
deixei-lhe uma migalha minha,
não marca de água, mas de pão também:
um tema posterior a decifrar mais tarde
em posterior leitura
alheia

— Ana Luísa Amaral, Minha Senhora de Quê, 1990


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